Menu






De um sorriso como bálsamo e...
15Jun2008 12:40:00

De um sorriso como bálsamo e olhares distantes

por Lecy Pereira Sousa

 
Uma sensação de impotência descabida.
 
Isso tomou conta de si, enquanto esperava um ônibus que o conduziria ao local em que ele nunca desejou estar, principalmente em tal situação.
 
Pelo caminho, as montanhas, sempre elas a incutirem lembranças. Outras viagens, outras épocas de frescor juvenil. Aquela alegria foi resgatada em algum lugar do seu cérebro, talvez com o objetivo de mascarar o tempo presente. Em seu coração, uma tentativa indescritível de se agarrar a uma esperança de recuperação dela. Sentimentos conflitantes.
 
Sim, ele esperava chegar ao seu destino e lá ver a realização de um milagre de cura. Sabia que ela estava consciente, mesmo ligada a uma parafernalha de máquinas que amparam uma sobrevida enquanto podem. Sabia que ela manifestou o interesse de vê-lo, ao mover a cabeça e apresentar no olhar o brilho da resistência quando duas de suas filhas a visitaram em outro dia.
 
Ele foi visitá-la. Segunda-feira. Tarde. Hospital Nossa Senhora de Lourdes. Uma hora de atraso para permitirem a entrada de visitantes. Uma de suas irmãs também o acompanhou. Aquilo parecia uma eternidade. Uma sensação de vazio estomacal que nenhum alimento físico saberia preencher. Tudo que se punha à boca, parecia uma tentativa estúpida de desviar a atenção daquele torpor. O quadro é muito grave. Tá bom. Já sei, já sei. Pára de falar, por favor. E se a gente tivesse feito isso? E se a gente tivesse feito aquilo? E se a gente tivesse agido da maneira certa? E se a gente não tivesse concordado com cirurgia nenhuma? Mas não agüentávamos ver aquele sofrimento. Era como se doesse em nós. Angústia. Vontade de arrancar o mal com as próprias mãos. Tudo que ela comia já não ia para o estômago. Pedra na vesícula e mais a agravante de uma úlcera rompida.
 
Finalmente liberaram a entrada. Aqueles outros parentes de outros pacientes, todos com o coração nas mãos. Centro de Terapia Intensiva. Entraram e sua irmã foi logo se aproximando da cama onde ela estava dormindo, sem o tubo que induzia a respiração. Aquele fôlego curto. Sua filha chorava e segurava na mão dela e pedia que ela acordasse e ele, com medo que isso piorasse a situação, pediu que sua irmã a deixasse quieta. Ele temia uma arritmia cardíaca. Chegou o momento da médica falar como estava a situação. Nenhum alento. Melhorou assim, assim, mas outros sintomas são preocupantes. Risco de derrame. Diálise, diálise, diálise. Os rins não queriam voltar ao trabalho. O que é do corpo de um homem e de uma mulher sem urinar? Sua irmã precisava ir embora. Mesmo triste porque sua mãe não acordava, despediu-se do irmão que ficou mais um pouco. Ele começou a falar sozinho: olha, eu vim aqui, sei que a senhora sabe disso, sabe também que só enxergo a senhora livre dessas máquinas. Numa última tentativa de acordá-la, ele bateu três vezes no antebraço esquerdo dela. Como por um milagre, viu que ela acordou e no momento em que o reconheceu abriu um sorriso e o coração dele tomou aquele sorriso como um bálsamo. Eu amo muito a senhora, mãe, viu? A senhora consegue me entender? Ela mexeu a cabeça afirmativamente e fez um esforço extraordinário para falar, mas algo que ele não conseguia entender a impedia. Ela não sabia escrever. Tudo que ele conseguiu entender foi aquele olhar que já parecia distante, distante... Ela estava deitada ali havia vários dias na mesma posição e sem poder pronunciar uma palavra. Nós te amamos muito, mãe, viu? Fique calma, bem calma, tá? A minha irmã esteve aqui comigo, a senhora estava dormindo e ela precisou ir. Olha, eu arrumei a cama da senhora lá em casa. A gente espera seu retorno. Não fique nervosa, tá? Pense só nas coisas boas, em Deus. A enfermeira disse que a visita tinha acabado. Não durou nem uma hora. Eu já vou, mãe, mas amanhã vem mais gente ver a senhora. Ele deu um beijo em sua testa e começou a se retirar do CTI meio sem querer, ainda olhando para aquela imagem da sua mãe com uma touca branca e com uma respiração ofegante.
 
Ele saiu do hospital com uma sensação de vazio inaudita. Andou como que cambaleando pela rua, sabendo que de si nada podia fazer para alterar o rumo daquela história. Lembrou-se de sua infância e de sua mãe o arrastando para tomar uma vacina em uma kombi da prefeitura que passava na rua. Ela que nunca pôde estudar e mal sabia assinar o nome o levando para a escola pela primeira vez. Veio-lhe à mente uma infinidade de outras situações em que só uma mãe zelosa e preocupada pode intervir por um filho nas diversas fases de sua vida.
 
Sentindo-se meio anestesiado e também meio morto, ele entrou no ônibus de volta para casa. Lembrou-se daquele sorriso da sua mãe que estava lhe servindo de algum conforto. Aquela foi a última vez que ela lhe sorriu nessa vida.                                    



Partilhar:

Por: Renato 25Nov2009 09:24:18
eu gostaria de saber se você conheceu o Renato Good Camargo, meu avô.

favor responder em meu e-mail.
agradecido.


Para poder comentar necessita de iniciar sessào.