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Os Descaminhos da Melancolia VI
15Jul2008 00:10:00

Mudar de cenário.

matrix_neo.jpgDifícil saber quanto vivi tal situação ao longo desse ser-estar no mundo.  
Quando assisti pela primeira vez ao filme Matrix, senti-me dentro de um déjà vu. Justamente. Sensação de déjà vu é o que passei a experimentar a certa altura da mudança de cenários. Antes da adolescência, pouco nos importamos se  estamos numa favela, numa floresta, num parque temático. Após essa fase, comecei a "adivinhar" o que alguém iria dizer num determinado momento e o roteiro completo de um acontecimento.

 

Diovvani Mendonça em www.amigodaalma.com.br

Se eu fosse escrever um livro sobre as circunstanciais mudanças de "locações" em torno de aproximadas quatro décadas, tudo não passaria de ficção. Quanto mais me imiscuo ( a palavra é essa mesmo) na realidade, mais me projeto na ficção. O nosso passado é uma história de contador de causos (eu escrevi causos). Sigo me corrigindo (essa construção periódica é terrível) para não parecer estar incorrendo em erro contínuo. Todo nosso passado é lendário. Vejamos, não estou mais na casa com quintal amplo onde, pela manhã eu podia ver revoada  de pombos em vôo sincronizado obedecendo a um relógio biológico. Lá, em algumas noites de Sábado eu costumava receber  a visita do Motoqueiro das Palavras Yendis  acompanhado do insone letrado Vinícius. Atravessávamos horas falando das efemérides literárias e lendo poemas e textos embrionários. Várias vezes li "projetos" de textos, idéias que não se completavam e ainda não se completam. Também lá ia o Fernando que pintou uma tela que lhe encomendei  ( para o gosto dele a tela era horrível) e a mantinha pendurada numa parede da sala. Recentemente pus fogo na tela. Não pirei. Ao retirá-la da parede notei que a armação estava completamente comprometida pela ação continuada dos cupins. Lá se foi a tela temporária. Ela pirou. Não ficou sequer uma foto para registrar sua existência. Foi como se Fernando jamais a tivesse pintado.

                                 Fernando Januário em www.fernandojanuario.blogspot.com

Outras vezes quem me visitava era o Jonas, o profeta do fim do Século Vinte e do dia-a-dia do Século Vinte e Um. Ele sempre trazia todos os seus DVD com shows do U2, além das gravações em MP3. Não tenho muita certeza, mas acho que ele gosta muito da música e do vídeo original de "Who's Gonna Ride Your Wild Horses".

 

Um dos livros que comecei a ler nessa fase de retiro domiciliar foi "Tudo que é sólido desmancha no ar" de Marshall Berman. Outros nos quais progredi na leitura foram "Em que acreditam os que não crêem" de Umberto Eco, "As Intermitências da Morte " de José Saramago, "Terra Sonâmbula" de Mia Couto,  o "Manual dos Inquisidores" de Nicolau Emérico e o poético "Camarim de Prisioneiro" de Alex Polari que, segundo soube, está vivo e é líder religioso do Santo Daime.  Estes dois últimos livros me foram emprestados por Diovvani Mendonça que também me visitava  e tomávamos umas cervejas e comíamos pipocas e vivíamos a possibilidade do Pão e Poesia. Nem todas as falas cabem em palavras. Não sei dizer se aquelas foram leituras alegres ou tristes. Tudo depende do estado de espírito de quem está a ler.tudo_que_e_solido.jpg

Eis que o cenário agora é um quarto amplo (para quem já dormiu num cubículo sem janelas...), no segundo andar de uma residência cuja história é, deveras, extensa para um fôlego só.

Aquilo que vai ficando para trás serve de insumo para histórias e causos nem sempre contados com riqueza de detalhes. Se houver quem se disponha a contar para além do memorialismo.

Recentemente tive uma sensação de déjà vu enquanto apresentava fotos eletrônicas para algumas crianças na escola. Curioso, muito curioso.

Até o próximo cenário.

Lecy Pereira Sousa

 



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